Até que ponto ainda é possível ‘acreditar’ em uma carreira voltada para a Arte e quais são as soluções viáveis
Em tempos de escassez e de perspectiva sombria em relação ao andar da indústria fonográfica, ainda há os que pautam suas carreiras em arte e esperam de alguma forma poder ter um justo retorno por isso. Há os que sonham sob a mais absoluta incerteza e os que, apesar das incessantes dificuldades, conseguem.
Alden Tyrell, artista holandês autor de ‘What Your Eyes Can Do’ e ‘Disco Lunar Module‘
Considerando que, segundo dados do próprio Resident Advisor, os mais bem sucedidos lançamentos de single em vinil de música eletrônica conseguem atingir um limite de cerca de três mil cópias vendidas atualmente, a conclusão quase inevitável a que se chega é que cada vez menos pode se esperar qualquer espécie de retorno financeiro plausível para estes lançamentos, por maior que seja a sintonia com o público-alvo.
A criatividade continua, e com ela, a idéia de que uma boa projeção junto ao seu público e uma agenda repleta de datas de apresentações, sejam elas live-act ou DJ set cai como uma luva em tempos como esses. É exatamente desta forma que a esmagadora maioria dos cultuados artistas da música eletrônica underground têm se mantido, entre os quais heróis de gerações mais recentes ou mais antigas, de Derrick May a Ken Ishii, Fabrice Lig ou Arne Weinberg. Afinal, você acha mesmo que o Larry Heard ainda tem esperanças de vender as trinta mil cópias que vendeu de cara em seu primeiro bem-sucedido lançamento de 1986 como Fingers Inc., o ‘Mystery Of Love‘? “Forget It Jackie, It’s Chinatown”. Situações como esta e tantas outras, coma a do Ray Keith que pôde comprar uma B.M.W. nova com o resultado do seu remix para ‘Scottie‘ do Subnation em 1994 viraram (salvo raríssimas exceções) histórias do passado.
Ken Ishii, ícone do Extremo Oriente cuja amplitude musical nos deu de presente o fantástico ‘Mix-Up Vol. 3‘
Agora, o ideal é encarar a realidade de frente e aceitar o fato de que não há muito o que fazer a não ser se aproximar o máximo que puder do seu público-alvo, promover os downloads pagos, (sobretudo) buscar uma agenda cheia de apresentações através de um inteligente esforço de fortalecimento de imagem, uma boa assessoria de imprensa e um agente expansivo, e ainda por cima achar tempo para produzir maravilhosamente bem e lançar regularmente.
Fácil, não é? Pelo contrário: não raro, um vem em detrimento do outro. Explico: há casos conhecidos em que alguns consagrados artistas, célebres pelos seus excepcionais lançamentos passados, vivem até hoje do fruto destes, porém sua agenda é tão cheia que simplesmente não têm tempo ou insight para criar musicalmente algo novo. E também o caso do introspectivo e recluso talento que se recusa a botar as asas de fora, ou seja, é muito melhor no estúdio do que fora dele.
Fabrice Lig, artista Belga trazido pela Clunk que se apresentou no Spkz club no início deste ano
Apear disso, ainda bem que temos heróis que aprendem a administrar todas essas delicadas missões e conseguem lançar músicas incríveis, fortalecer a sua imagem, manter a sua identidade e de quebra se apresentar ao redor do Planeta. Artistas talentosos que não se curvam diante das dificuldades do dia a dia e estão constantemente em busca de soluções e ao mesmo tempo estimulando a sua mente criativa, ávida por arte, e não só mero entretenimento. Isso é um negócio muito sério. Se você é capaz de reconhecer alguns poucos nomes que se encaixam nestas características, prestigie o trabalho deles. Apoie, divulgue, vá ver suas apresentações, convide os teus amigos.
Os heróis da Música Eletrônica Ken Ishii (Japão) & Fabrice Lig (Belgica) apresentando a faixa “Organised green” durante live em Tóquio
Links:
MySpace Alden Tyrell: http://www.myspace.com/87469781
MySpace Fabrice Lig: http://www.myspace.com/fabricelig
MySpace Ken Ishii: http://www.myspace.com/70drums
Resident Advisor News: http://www.residentadvisor.net/